quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A metonímia ocidental

      
                «Pai, quantos são hoje?»
             «São 29; hoje é dia 29 de Fevereiro de dois mil e doze. Parabéns, filho! Há quatro anos que não comemorávamos na data certa.»

                Neste dia, que só existe nos anos bissextos – aqueles que têm trezentos e sessenta e seis dias –, também nascem pessoas (e morrem). Ora veja-se: quem faz anos a 29 de Fevereiro só pode comemorar o seu aniversário, a data certa, quando há anos bissextos, quando não, o que corresponde à maior fatia de aniversários (afinal, um individuo que tenha cem anos apenas comemorou vinte e cinco, desses cem, no dia certo), comemoram de acordo com as suas crenças: uns a dia vinte e oito, e outros, os supersticiosos, a dia um de Março.
                Deve haver um número enormíssimo de histórias relacionadas com peripécias dos “bissextos” (chamemos-lhes assim, acto honorífico e não discriminatório) provavelmente muitas delas caracterizadas por uma fuga ao registo civil, reflexo de uma época que já foi. Dita a globalização que não nos podemos esquecer de outras coisas. Será que os mais jovens de hoje, que não são os de ontem, recordam Julia Roberts ajoelhada perante Richard Gere, pedindo-o em casamento? Runaway Bride (1999) tem uma certa continuidade proléptica no filme Leap Year (2010), cuja diegese está ligada a uma lenda irlandesa, que conta que quando a dia 29 de Fevereiro uma mulher pede um homem em casamento, o tipo não pode fugir. Sortudo, sortuda, ou coitados – são outras histórias.
             Diz-nos o Instituto do Registo e Notariado que, em Portugal, nasceram 8.976 pessoas no dia 29 de Fevereiro. Neste dia, que tanta graça oferece, outras coisas fazem anos, não são só as pessoas. Neste dia de casamentos-dos-quais-não-se-pode-fugir, a TSF fez a sua primeira emissão. “TSF, a rádio que mudou a rádio”, conta o sítio na rede.
Pela boca de Francisco Sena Santos nasce o primeiro noticiário da TSF, diga-se antes pela voz, que é a grande máquina da rádio. Se fossemos correctos diríamos que a TSF ainda é jovem, mas não é verdade. Os norte-americanos têm uma expressão grosseira que serviria para designar o tipo de velha jeitosa que é a TSF, mas perder-se-ia o tom de que se precisa quando se fala desta rádio.
           Dia 29 de Fevereiro é o dia mais interessante de todo o ano. E o pai, cujo filho é “bissexto” e curioso, deve responder, com agrado e compreensão:
                «Pá, tens sorte. Envelheces mais devagar [com rigor] … serás sempre um jovem, com o saber de um ancestral. Alegra-te, pá.»
              O noticiário da TSF, que noutros dias 29 de Fevereiro fez a liberdade das gentes do país, canta agora as notícias de um governo que austeriza as mesmas gentes. Parabéns, “bissextos”. E desculpem não haver prendas melhores.  Aos irlandeses: se se casarem agora, lembrem-se de respirar fundo, afinal o cinto está apertadito. 




Oiçam a primeira emissão da TSF no link: http://www.tsf.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=914600


Diogo da Cunha


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A pedra de ferro no sapato dos Trabalhistas



Hoje é 27 de Fevereiro. Foi há 112 anos que várias uniões sindicais e organizações socialistas se juntaram no Congresso dos Sindicatos (Trades Union Congress) para formar o Partido Trabalhista britânico.
Num Reino Unido em que o centro do cenário político era o Partido Conservador (ou Tories), de aristocráticos e proprietários de terras, o Partido Trabalhista e os seus ideiais socialistas propunham uma alteração no Parlamento de forma a que este representasse os interesses de toda a população.
Os Trabalhistas formaram o seu primeiro Governo em 1924 mas, a falta de uma maioria na Câmara dos Comuns e os rumores de ligações entre o partido e comunistas russos, mantiveram o Governo Trabalhista por apenas 11 meses no poder.
Com o fim da II Guerra Mundial, a necessidade de mudança levou à substituição do Governo Conservador de Churchill pelo Governo Trabalhista de Clement Attlee. A promessa de pôr um fim às cinco grandes ameaças à população britânica (carência, miséria, doença, ignorância e desemprego) conduziu os Trabalhistas à sua primeira maioria. Foi nesta altura que o Partido conseguiu a sua maior conquista: a criação do Serviço Nacional de Saúde.
Em finais da década de 70, a decisão do Governo Trabalhista de congelar os salários para travar a inflacção galopante conduziu ao “Inverno do Descontentamento”. Entre 1978 e 1979 o Reino Unido viveu um período de greves sem precedente, onde reinava o caos e a miséria.
A incapacidade dos Trabalhistas de conterem os sindicatos e porem um fim às greves sistemáticas levou ao poder Margaret Thatcher e o seu Governo Conservador.
Thatcher afirmou-se logo como a maior opositora aos Trabalhistas. O seu Governo conturbado retrocedeu a maioria das conquistas dos quatro Governos Trabalhistas, privatizando grandes empresas nacionalizadas por Attlee e exercendo cortes em sectores como a saúde e a educação aos quais os Trabalhistas haviam dado particular importância e empenhado esforços em reformas.
Enquanto a Dama de Ferro volta à popularidade graças ao biopic que valeu à actriz Meryl Streep, que a representou, o Óscar, o Partido Trabalhista também tenta retornar à era de ouro perdida, em parte, graças a Thatcher.
O filme, através do olhar de Margaret Thatcher, mostra-nos a época em que o mais antigo e influente partido britânico, o Partido Conservador, inicia o seu declínio, proporcionando assim aos Trabalhistas a oportunidade de subirem ao poder.
Oportunidade que Tony Blair soube agarrar: reformulou a Cláusula IV da constituição do partido (referente aos objectivos e valores do mesmo) e criou o New Labour. Nos seus dez anos no Governo introduziu o salário mínimo nacional, criou um milhão de postos de emprego e fez o maior investimento de sempre no Serviço Nacional de Saúde.
Agora, Gordon Brown continua a escalada de popularidade do partido  e a cruzada para recuperar as conquistas dos anteriores Governos Trabalhistas que Thatcher havia anulado.


Raquel de Melo Teixeira